"O desapego não é indiferença, covardia ou desinteresse. O desapego é se libertar de tudo
aquilo que faz mal e causa sofrimento. Desapegar é sinónimo de se libertar. Soltar as
algemas. Colocar asas. Se permitir voar novamente. O desapego é a aceitação, é o
desprendimento.
As pessoas são, por natureza, apegadas. Nós nos apegamos a objectos, memórias e
pessoas. Nos apegamos a coisas que sabemos que terão fim... Veja só, me apego até a filmes,
que sei que duram apenas duas horas. E o que faço quando eles acabam? Assisto de novo. E
de novo. E de novo. Assisto tanto que decoro todas as falas. Até repetir tantas e tantas vezes
as mesmas coisas, que elas começam a não fazer sentido algum. E é isso que fazemos todos
os dias. Nos torturamos com memórias que já foram, repetimos cenas, apertamos o replay
e não pensamos na consequência que isso pode nos trazer.
O passado que tanto parecia fazer sentido passa a não fazer sentido algum. As memórias
se distorcem, aos poucos desaparecem e você já não sabe mais o que é real e o que é fruto da
sua imaginação desvairada. E sabe o que é pior? A vida não para. Enquanto você segura o
passado até que suas mãos sangrem e não suportem mais o peso da corda, o presente
continua e você nem percebe que poderia estar construindo novas lembranças, ao invés de
se agarrar às antigas.
Não adianta tentar manter algo em sua vida que já não faz parte dela. E, eu sei, é difícil
aceitar o fato de que não podemos controlar o destino nem todo mundo ao nosso redor.
Deveria ser proibido que pessoas queridas fossem para o céu tão cedo, ou que aquele nosso
namorado tão legal nos deixasse para ficar com a vizinha. Devia, sim. Mas não é. E sabe por
que não é?
Porque nós precisamos aprender, precisamos nos machucar. O coração precisa se partir
para aprender a se reconstruir. Se não existissem quedas, não existiriam triunfos. Você vai
cair, se ralar, sangrar, chorar e até mesmo pensar em desistir. Vai se prender a lembranças
e segurar o passado junto do coração. Depois vai perceber que todo o seu esforço é inútil e
que precisa seguir em frente. Vai procurar forças em livros de auto-ajuda e até mesmo nos
conselhos de sua manicure. Vai se olhar no espelho e se sentir a pior pessoa do mundo. Por
que tem de ser assim? Para você aprender a se reerguer.
Aquele que consegue colocar o desapego em prática atinge um estado de paz interior e
tem a consciência limpa de que deixou o passado onde ele deveria estar: no passado. E que o
presente é sempre um presente. E que o futuro vai vir recheado de novidades e sensações
novas.
Não se apegar não é ser indiferente à vida. É ter o conhecimento de que o sofrimento
chega, mas um dia deve partir. Não podemos dar abrigo ao sofrimento nem permitir que
ele faça de nosso coração sua casa permanente. Não é certo. Superar é preciso. Levantar-se
mais forte é essencial.
A vida é uma eterna roda gigante. Ora estamos em cima, ora estamos em baixo. Tudo na
vida é mutável, tudo mesmo, inclusive nós. Por isso precisamos aprender a “deixar ir”.
Nada é para sempre, por mais que queiramos que seja. Veja bem, nem as princesas são para
sempre.
Por isso precisamos viver todos os dias como se fossem os últimos. Com intensidade,
sinceridade e amor no coração. Precisamos desfrutar cada sorriso, cada olhar, cada
instante, porque nunca se sabe quando precisaremos deixá-los ir, para que novas coisas
possam vir.
Eu entendi que o passado não existia mais e que ele só existia dentro de mim com uma
única finalidade: me destruir aos pouquinhos. Quanto mais eu insistisse em segurá-lo, uma
parte de mim morreria. E eu deixei que ele se fosse. E que o presente chegasse. Respirei
fundo, não foi fácil. Contudo, eu precisava soltar as mãos daquilo que estava me retendo.
O desapego é saber a hora de se despedir de coisas que não têm mais espaço na sua vida.
Pode ser aquele sofá velho que habita sua sala de estar há anos, mas do qual você não se
desfaz porque lembra a sua avó. Pode ser aquelas roupas que você nunca usou, mas guardou
porque é egoísta demais para doá-las. Pode ser aquela panela sem alça que você ganhou de
presente no seu primeiro casamento, mas não teve coragem de jogar no lixo. Pode ser
aquele vidrinho de perfume que você guarda no fundo do guarda-roupa só porque lembra o
cheiro. Pode ser aqueles vidros de esmalte vazios que você colecciona. Pode ser memórias de
pessoas que já se foram, mas que ainda prendem você ao passado. O desapego pode ser
aprender a se despedir na marra, já que muitas vezes não temos escolha. O desapego é saber
a hora de ir e deixar partir, e isso é essencial na vida de qualquer ser humano.
Quem dera todos soubessem a hora de levantar bandeira branca,reconhecer que acabou
e transformar a reticência em ponto-final." Isabela Freitas.
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